Por acaso cheguei atrasada no ponto então decidi tomar um ônibus diferente, para driblar o caminho e não triplicar o atraso para o compromisso da tarde. Eis que embarco e antes mesmo de sentar sou surpreendida. Um olhar que eu já não via há mais de cinco anos me sorri carinhoso. Era a minha professora de português da sétima e oitava série lá na Escola Jesus Cristo. Íris é o seu nome. Minha principal incentivadora no mundo da poesia. Foi ela quem viu pela primeira vez uma poesia escrita numa tarde qualquer e que me levaria tão longe. 
Ela me contou que ainda hoje, quando acontece o festival de poesia, ela fala toda orgulhosa para todos da sua aluna que conseguiu um lugar no concurso estadual. E concorrendo com tantas meninas e meninos do estado, ganhou um dos prêmios: melhor intérprete. Da sua própria poesia, daquela corrigida pela pró, alguns meses antes da conquista. 
Foi tão incrível conhecer pessoas de cidades distantes, ter encontros periódicos até o dia da apresentação, escolher figurino, fazer pintura no rosto. Me apresentar diversas vezes em lugares diferentes no evento. Ser convidada posteriormente para uma apresentação no Centro Histórico, Pelourinho, durante outro evento. E a paixão pela poesia que só fez crescer.
Nada disso seria possível se ela mesma, essa mulher determinada e gentil não tivesse me ajudado a revisar a primeira poesia que tive coragem de compartilhar. 
Lembramos de tudo isso no busú, aquele que eu peguei por acaso. Ela me contou dos novos alunos, e de como seus filhos cresceram. Nós duas revelamos a saudade e prometemos nos encontrar novamente. O ponto dela foi antes do meu e ela teve que descer, não sem antes me dar um abraço apertado. Fiquei ali olhando pela janela e deixando as lembranças fluírem enquanto o ônibus seguia. A essa altura eu já não me importava mais em me atrasar para o compromisso. Eu já havia ganhado o meu dia. 












P.S: Esse texto foi rascunhado no busú. E trouxe de volta essa coluna para a qual eu não escrevia há mais de dois anos!!! (Como assim blogger?! Pra mim foi ontem que escrevi o "Companheiro de viagem" , ai tempo, tempo, tempoo ♪).
Clique e veja mais histórias viajantes de trilhas urbanas ► No busú ◄ prometo demorar menos para a próxima! 


Com um sorriso bobão no rosto, ainda custo a acreditar. Para os demais aqui presentes o motivo do riso passa completamente despercebido. Pela milésima vez vejo todos esses rostos, que não são os mesmos de ontem, e vislumbro que certamente cada qual tem uma história, com diferentes formas de encarar as situações cotidianas.
Eu tenho uma mania, e imaginava que ninguém teria a mesma. Até hoje. 
Ao caminhar pela rua é comum encontrar alguém distribuindo panfletos. Aceito todos de bom grado, caso esteja com as mãos livres. Leio o que nele estiver impresso e começo a dobrar, não para enfiar na próxima lixeira, mas para dar-lhe asas. Dobro o papel até que vire um "tsuru"*, eis a minha mania. As vezes guardo o tsuru na bolsa, as vezes dou pra alguém e as vezes deixo no ônibus pra provocar o próximo passageiro e assim, dar asas também à sua imaginação.
Estou sentada no corredor e ao olhar pra minha esquerda, onde está sentada uma moça, pude ver o tsuru pousado entre as frestas da janela, branco com letras vermelhas, ao seu lado o pedaço que sobrou da dobradura estava oferecendo algo GRÁTIS, assim mesmo em letras garrafais. Daqui não consigo ver o que é, mas só pode ser meu sorriso, que nasceu tímido e tornou-se largo, quando me deparei que há no mundo alguém que goste de deixar tsurus por aí, como eu. Gostaria de abraçá-la seja lá quem for, será que é a moça ao meu lado? Estou com vergonha de perguntar, queria que ela descesse antes do meu destino para que eu possa fotografar o tusuru, caso não ocorra, ele já está desenhado em minha mente. 
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Não desceu, mas fotografei o tsuru cá no coração de menina agitada e curiosa. E viva aos inquietos do busú!

*Tsuru é uma ave sagrada japonesa, segundo a lenda, ele vive mil anos e tem o poder de conceder desejos. O tsuru é o origami mais conhecido. A tradição diz que quem fizer mil tsurus terá um pedido muito especial realizado. 


Maria costumava passear todas as tardes na B8, tinha os cabelos cheio de molas, na altura do queixo, que desenhavam, assim, a moldura perfeita de menina sapeca, porém já passara dos quinze há quase dez. Seus olhos passeavam por páginas alheias como quem queria desvendar outras galáxias pegando carona num convés desconhecido. Ela observava também a forma como os marinheiros ancoravam suas vistas nas palavras que lhes escorriam dos dedos. 131 era o número da página do livro que observou dia desses num final de tarde. Seu palpite para esse era que o autor discorria sobre algo fantástico, daquele tipo com imensos labirintos e elfos. Na 135 o livro acabou, e ela observara atentamente o leitor até o ultimo ponto, quando ele esboçou a maior cara de duvida e confusão tratando imediatamente de  buscar no prefacio algum tipo de explicação. Ela gosta de encarar páginas alheias e não olhares, por isso o moço do ultimo livro a deixou sem jeito. Então, por muito tempo ela ficou sem visitar a B8. Seu segredo havia sido descoberto. 










P.S: Nesse marcador "No busú" postarei os textos que escrevo nas minhas indas e vindas pela cidade de Salvador, as vezes será sobre o que vi, as vezes sobre o que achei ter visto e várias outras sobre o que eu gostaria de ver. Como são textos escritos no balanço e na empolgação do momento, muitas virgulas e acentos estarão no lugar errado e farei questão de não corrigir, pois acredito que serão mais verdadeiros se não forem polidos! Espero que gostem! Tenham uma ótima semana!